A economia e o que importa
17/09/2009
Outro dia estava numa conversa de bar, quando ouvi um comentário, recorrente, que reflete o que acho que muita gente acredita sobre a relação entre renda e bem-estar, ou sobre a importância ou significado da medida monetária em si.
Estava falando sobre como era inteligente fazer uma cidade com um bom sistema de transporte público, como as pessoas não teriam de ter a preocupação extra de trabalhar para juntar 30.000 reais e afundá-los em um carro, sobre o quanto de felicidade, despreocupação e melhor uso do dinheiro do trabalho de pessoas poderia ser gerado por essa decisão política.
Então comentam: Mas isso é ruim pra economia, as pessoas precisam gastar pra ela se movimentar, pra gerar empregos, pra aumentar o PIB.
Não precisou fazer pausa para reflexão. Esses 30.000 poderiam ser usados de maneira melhor com outras alternativas, melhor do que um carro. Eles inclusive não se evaporam se não usar eles hoje, eu posso também poupá-los para usar em um momento mais apropriado pra mim.
Eu talvez nem queira trabalhar tanto se não precisar de um. Se eu gastar 30.000 em abobrinha, lápis de cor ou carrinho de rolimã, vai movimentar a economia, vai transferir renda. Alguns desses gastos não vão ser nem contabilizados pelo PIB, mas não deixarão de movimentar a economia. E quem está preocupado em movimentar a economia? Existe muuuito além do que é trocado formalmente em uma economia. Existem coisas mais importantes do que trocar. Trocar é um meio, não um fim.
Infelizmente trocar é um fim pra quem se preocupa com índices econômicos, como o Lula, que em plena crise manda todo mundo comprar geladeira e carro porque é bom pro PIB do Brasil-sil-sil! Agora, será que é bom pra quem gastou quando o presidente mandou? Não tinha nada melhor pra fazer? Não tinha hora melhor pra fazer? Crise não é hora pra comprar. Se você não sabe se ainda vai ter seu emprego amanhã, eu não te aconselharia a gastar mais. Mas vamos lá, que o PIB tem que rolar. Governo gasta mais, pessoas gastam mais, não importa com o que, o importante é gastar, porque temos metas macroeconômicas e eleitoreiras. Vamos aproveitar a aumentar em 10% o funcionalismo público pro ano que vem.
Essa é uma mentalidade brutal. Não há critério para se gastar, uma vez que o efeito imediato aparece só nos indicadores do ano em questão. Vender carro é melhor pra economia do que fazer um transporte público decente. Mas será que as pessoas não tem nada melhor pra fazer com o dinheiro? Não seria uma boa fazer as pessoas economizarem pra poder comprar outras coisas ou talvez gastar com algo simples e mais inteligente?
E será que comprar é sempre bom? Vender garrafinhas de água no parque é melhor pra economia do que colocar bebedouros? O parque da cidade tem 2 bebedouros. Isso é inteligente? Ah, mas ai as pessoas vão comprar água, é bom pra economia. Isso funciona do mesmo jeito que a questão do transporte público. É uma coisa que no longo prazo tem os benefícios muito maiores que os custos, é uma questão simples de administração de recursos (poderia ser até uma questão democrática – e é – mas pra se ver como é óbvio, dá pra ficar só no argumento econômico). Se eu der água de graça, vou ter uns custos de fazer a infra dos bebedouros, mas as pessoas (que formam uma sociedade, quem diria) não vão precisar gastar com garrafinha, não vão jogar fora a garrafinha, vão provavelmente querer frequentar mais o parque, vão fazer mais exercício, etc.
Os benefícios indiretos de um transporte público que funcione bem também são imensos. As pessoas vão usar mais a cidade, não vão deixar de fazer algo agradável ou útil por causa do custo de locomoção. Isso gera riqueza, isso é riqueza potencial, é o fim, é o “bem-estar”. Comprar é um dos meios pro aumentar o bem-estar, e está longe de ser o único. O PIB só captura o que é trocado no ano, um fluxo de “riqueza”. E tudo aquilo que só é produzido ou consumido anos depois de um investimento inteligente? E aquilo que não é trocado, e que faz com que as pessoas sejam possivelmente mais felizes ou livres?
Nem o PIB nem a renda per capta, nem o índice de analfabetismo capturaram a proibição da marcha da maconha. Também não capturaram o golpe no estado do Maranhão que colocou a Roseana Sarney no poder.
É incrível a atenção que “índices objetivos” conseguem atrair. A capacidade de desviar a atenção também é impressionante. Eles indicam se “as coisas” estão indo bem ou mal. O foda é o que são essas “coisas”. O que importa estar melhor ou pior de verdade?
Não sei se os “mistérios” da economia são formados por uma complexidade falsa criada para coisas simples, ou se são conclusões simplistas para coisas complexas.




