Problemas do conhecimento e da liberdade
15/09/2009
Comprar esse livro foi realmente uma coincidência bacana. Entrei numa livraria a procura de algo para ler nessas “viagens”. Eu estava pensando em algum romance, pra espairecer. Mas ficção é muito perigoso e difícil pra se escolher… principalmente quando não se tem nada específico em mente numa livraria grande. Então fui numa seção de “coletâneas de artigos” ou algo do tipo, que é bem o tipo de coisa que gosto, várias idéias escritas sem enrolação, diretas, reunidas.
De repente dei de cara com o Chomsky, num livro com um título que me chamou a atenção: “Problemas do conhecimento e da liberdade”. Bom título. Ele trata basicamente de dois temas, que foram divididos em dois capítulos: “Interpretar o mundo” e “Mudar o mundo”, que se encaixou muito com o monte de coisas que eu estava pensando. Coincidência massa.
O livro às vezes não segue uma sequência muito encadeada, então vou botar umas frases e idéias básicas que acho legal. Vou colocar meio solto, outra hora dou mais sentindo.
A primeira questão é interpretar o mundo. “Nós utilizamos a linguagem para exprimir e esclarecer pensamentos”. Mas qual a relação entre pensamentos e o conhecimento? “Nossa constituição mental nos permite chegar ao conhecimento de mundo na medida em que nossa capacidade inata de criar teorias venha a coincidir com algum aspecto da estrutura do mundo”.
Do que são formados os usos das palavras? Que palavras que compreendo, ou quanto delas, derivam seus significados das experiências? Dada nossas limitadas experiências empíricas no mundo, como é possível construir tanto conhecimento?
Nossas experiências fazem com que adaptemos o uso, o ‘significado privado’, das palavras no mundo, que depois podem ajudar a mudar o ‘significado público’. Os significados e relações estão em constante formação, que depende de nossa percepção única do mundo. Porém, nem todo o significado é fruto de comprovação empírica. Nós utilizamos o que percebemos como “uso” comunitário da palavra como algo válido, absorvemos a experiência social em relação a essa palavra e aquilo com que ela pode se relacionar, se significar.
Tem uma frase interessante, que ele fala de crença, experiência e conhecimento: “O pouco que sabemos a respeito da especificidade e complexidade da crença, comparado à pobreza da experiência, leva-nos a suspeitar de que é, no melhor dos caos, enganoso afirmar que as palavras que entendo derivam seu significado a partir da minha experiência”. Não sei se ele quer dizer ‘a partir’ ou ‘apenas a partir”. Eu to acreditando na segunda opção.
Eu tava pensando em umas coisas que tem a ver com o tema desse primeiro capítulo, de significados e usos de palavra, como eles são formados por intuições, do que é intuição, lembranças subconscientes amontoadas que nos apontam para decisões, sem significados precisos, sem podermos descrever razões, não é objetivo. De como os pensamentos podem vir antes da linguagem, existir pensamento além da linguagem. Ainda tenho que conversar com o Tomás pra esclarecer dúvidas sobre essas coisas, ainda vou postar sobre isso.
A segunda parte, “mudando o mundo”, o Chomsky cita muito o Russell, que ainda não li, mas que me pareceu ser um cara muito bacana, hehe. Ele discute muito a educação, que na verdade é uma coisa que nunca tinha visto direito, mas que tenho pensando muito sobre isso agora, sobre a abrangência dos benefícios da educação como sendo muito abrangente, sobre o poder de fazer o mundo ficar melhor. Antes eu acreditava, mas acho que não vislumbrava tão bem. Me deu até um otimismo, mas ainda ta foda de acreditar ou de vislumbrar se o futuro vai ser menos ou mais animador.
A frase que mais resume o valor da educação é essa: “O que mais precisamos para tornar o mundo feliz é inteligência. E isto é, afinal, uma coincidência otimista, pois a inteligência é algo que pode ser promovido por métodos educacionais conhecidos”.
Deve se “extrair e fortificar qualquer impulso criativo que um humano possa ter” – perece que isso ta meio longe de acontecer… Não deve ser apenas uma instrução, nem ser baseada em autoridade.
A educação “deve ser uma atividade direcionada para o mundo que nossos esforços buscam criar”. Esse é um bom ponto. Aprender criar uma idéia de mundo melhor, aquilo que se quer buscar. Aprender a fazer o que se quer, o que se prefere, a se organizar para buscar um mundo que preferiríamos em relação ao que parece que vai ser, ou que é. Lidar com novas possibilidade, vislumbrar que elas são possíveis. Quanto otimismo.
A liberdade, para ser completa, deve trazer consigo não apenas a mera ausência de repressão, mas também a oportunidade de auto-organização. “Ela deve conferir o direito de associação com outras pessoas na construção de uma organização social com consciência e vida corporativa próprias”. Acho que atualmente a gente espera ser tratado como consumidores, como clientes, pelo governo, como sendo uma empresa, com um tipo de objetivo fixo, que não fazemos parte – intervenção de pensamento caótico*.
Sobre atuação social, ele defende, por exemplo, que é possível fazer do trabalho algo mais agradável se houver interesse óbvio da comunidade será torná-lo agradável, sendo criadas ou fortificadas instituições sociais organizadas para esse fim. Acho que esse já é um ponto de partida para se defender, por exemplo, a redução de horas de trabalho “obrigatório”, fazendo com que o tempo livre possa ser utilizado livremente para trabalho produtivo criativo e para organização social.Vale mais reflexão sobre isso.
Uma grande questão é sempre, ‘o que deve ser abrir mão’ para que algo ocorra. A nossa sociedade é boa para produção de recursos de maneira ‘eficiente’, com o menor custo possível, é nisso que o capitalismo é bom. Muita gente tem vidas muito ruins por ter trabalhos muito ruins como único meio de vida, ou nem mesmo ter fonte de renda, ou que seja consumo diretamente, para sustentar esse padrão de produção e organização. A moral ‘capitalista’ não diz nada sobre distribuição. De qualquer jeito, tipos alternativos de organização social não vão se propor apenas à eficiência, logo algo de consumo material terá de deixar de existir. O padrão de produção e consumo como um todo mudaria. Hierarquia e competição faz produzir. Auto-gestão pode ser melhor para distribuir, falando apenas materialmente, mas nunca tão eficiente na produção. Está disposto a trocar? Nunca vamos poder imaginar bem como “será” uma segunda opção hipotética, talvez esse seja o maior problema das mudanças ideológicas. O apego ao que temos, o medo da água fria, ou do trabalho desperdiçado (ou não) em tentativas de fazer o mundo diferente.
Daqui a pouco posto minhas impressões mais específicas sobre o valor da educação e da criatividade, do ponto de vista de ‘bem-estar social’, ou como felicidade.




