o Céu, o Chão

16/11/2009

Esses pensamentos sobre linguagem e inteligência me fizeram ir atrás de teorias sobre cognição animal, sua relação com a “consciência”. Esse salto entre animal e humano não funciona. Logo, tive a idéia de buscar termos relacionados interessantes na wikipédia. Me dei de cara com uma quantidade enorme de informação e teorias, o que até desarticulou um pouco minhas idéias, então esse será um post broxado. Já tá tudo pensado nesse mundo. Tem tanta gente pensando sobre isso, e eu nunca estudei nada disso na aula de ciências! Ainda assim vou expor de maneira desnecessária o que penso – se não, não tem graça – descarga abaixo.

Partindo do papo de organização de significados, como essa organização evolui? Memória, passado, valores, significados. Uma hora começamos a ter acesso ao futuro, à abstração, às projeções. Os humanos desenvolveram muito o “sentido do futuro” (ainda que talvez muito limitado). Dominaram o futuro, se apropriaram dele. Mas outros animais também têm acesso a ele, a escolhas futuras, tem a noção de capital e investimento (de uma maneira ampla). Um pássaro constrói um ninho, faz estoques. Já viajamos para o futuro (os futuros) – sem os problemas de paradoxos =) Conforme vamos separando melhor causas e efeitos, a noção das possibilidades, vamos desbravando o futuro.

O próximo passo em complexidade é produzir cenários, não só interpretá-los. Quanto mais complexos e variados os cenários, mais acesso ao futuro. Ai que parece que começa um conceito de inteligência que vai além do que abrange simplesmente ‘resolver problemas’. Quanto melhor construímos cenários, com relações mais precisas entre variáveis, mais consciência temos do todo, e vice-versa.

Autoconsciência

Eu tava pensando na autoconsciência como um estado de confusão, resultado de um grande cruzamento de informação que tenta ser interpretada, a “consciência” do poder de escolha, ou da ‘margem de erro’ que gera a ilusão das possibilidades. Como somos imprecisos para entender e prever coisas, chamamos os ‘erros esperados’ de interpretação de ‘possibilidade’, ou por que não, de escolha. Uma vez que percebemos essas possibilidades, percebemos a “responsabilidade da existência”. Mas não entendemos direito, não sabemos o que queremos. Temos que perguntar.

A consciência da possibilidade, de que algo ‘melhor’, desejável, é possível – e me parece que isso requer que seja melhor no futuro. Também requer uma idéia de sujeito para o “melhor para que, ou para quem”. O sujeito talvez possa ser um formigueiro, um corpo, uma ‘mente’, um universo.

A autoconsciência como um conjunto de perguntas que conseguimos fazer sobre nós mesmos, questionamentos sobre o ‘desejável’ – onde mora a confusão. Para isso temos que ter a capacidade de abstrair cenários para balizar escolhas. O vislumbre das possibilidades futuras muitos animais têm. O problema é sentir “a melhor” possibilidade futura para um. É defini-la. É no máximo uma direção imprecisa. Bactérias e vegetais são precisos demais no que fazem.

Todos criam respostas ao ambiente, a problemas. Mas por algum motivo damos valor para os que criam perguntas. “O que eu quero?” – o ser humano está muito confuso. Parece que se questionar sobre si mesmo é um artifício pra depois de respostas frustrantes: Eu quero picolé de uva ou maracujá? Hum… não sei, vou pensar um pouco sobre as bases de quem eu sou pra ver se descubro uma resposta mais satisfatória para essa minha grande dúvida, pra essa minha indiferença.

 

Criatividade e Inteligência

Eu vi que tem gente que considera que inteligência e criatividade são duas coisas distintas. Depende do conceito de inteligência. Acho que muitos animais são inteligentes, só não são tão criativos quanto os humanos podem ser pra abstrair tantas possibilidades, ou não. Criatividade para testar diferentes agrupamentos de variáveis e significados.

Vi algumas definições possíveis de inteligência. Umas colocam como capacidade de resolver problemas, e além, potencial para achar e abstrair problemas, para então poder adquirir mais conhecimento. Adquirir conhecimento – memória de resoluções de problemas, de processos, caminhos mentais.

Inteligência poderia ser dita simplesmente como um grande processo cognitivo. Mas a grande questão é ‘criar inteligência’, adaptação, não só ter inteligência pra interpretar e resolver problemas restritos (isso vem sendo medido com coisas tipo vestibular). Tem que ser capaz de melhorar métodos cognitivos por si só, criar e perceber novas possibilidades.

Talvez ‘instinto’ seja às vezes atribuído a respostas muito rígidas de cenários. A inteligência seria a adaptação a diferentes cenários – vários animais conseguem. A “qualidade” superior está em formular perguntas, e não respostas, e pra isso é preciso criatividade. A gente é bom em direcionar um random e sentir as respostas.

A criatividade seria então requisito para a autoconsciência. Tem que criar perguntas sobre sí mesmo, sobre “o desejável”, tem que se perguntar sempre novas perguntas conforme o ambiente muda. Introspecção pode ser uma técnica, mas não é ensinado na escola. Isso teria de ser melhor agregado à cultura e à educação.

Interessante que, como abstrair para perceber as coisas envolve esforço, parece que ainda poderia sobrar espaço para uma liberdade de se buscar perceber melhor as coisas, ou não. A liberdade – em outro sentido – estaria em perceber que o melhor possível foi feito, que o resto é esforço em vão. Resta apenas apreciar. No acaso, é livre. A busca pelo poder, pela técnica, nos faz querer reduzir a aleatoriedade. Mas a partir de um nível, voltamos. Quanto mais conscientes, mais aceitamos o aleatório.

Eu não sei porque eu exponho esse tipo de pensamento megalomaníaco..

Padrões e Comparações

Os sentidos são os filtros de informações, dados a priori. Inicialmente são sobre informações químicas e físicas, ondas e matéria. Os sentidos parecem ser viesados pela percepção inicial de um “eu”, que me parece ser delimitado inicialmente pela dor (tato, fome), um sentido interno. Acho que isso não importa tanto agora.

O que fazemos com essas categorias de informação? Fazemos uso delas (não me pergunte pra que ou porque). Para ter algum uso, as informações devem ser separadas, clarificadas. Depois conectadas entre si. A natureza dá a primeira sugestão de categorização, dado pela própria diferença entre os sentidos.

Somos maquininhas de detectar padrões. Somos sensíveis a frequências, ao uso da estatística, da memória. Tem coisas “que ficam”. Acho que aí começam as teias. Nós temos múltiplas sensibilizações simultâneas que ao longo do tempo devem formar padrões mais complexos de sensibilização conforme vamos ficando mais ‘sensibilizáveis’, desenvolvemos melhor nossa memória (sensibilização de longo prazo?).

Mas como definir um padrão? Como isolá-lo do resto das informações que formam outros possíveis padrões? Psicodélico. Acho que o padrão é aquilo que ‘salta’, que deixa marca na memória. A princípio não me parece ser voluntário, talvez seja algo bem químico mesmo, apertar os mesmos botões várias vezes deixa eles mais sensíveis, inclusive entre eles. Será que é só questão de estar suficientemente sensibilizado para que se possa identificar e definir algo?

Provavelmente há uma hora que passamos a aplicar a noção de verdadeiro e falso, ou seja, temos capacidade de analisar se um novo conjunto de informações corresponde ou não a outros padrões relacionados memorizados. A consciência (!) de algum padrão definido que será usado para podemos comparar, e porque não, julgar.

Criamos “ícones” para determinadas ‘frequências’ mais comuns e utilizadas que nos permitem identificar com alguma precisão relações de verdadeiro/falso. Isso implica construir ícones para relações entre variáveis. Vou chamar de ‘variável’ uma característica percebida como básica ou primeira que define ou determina um padrão.

As relações das ligações entre diferentes tipos de sensibilizações são o princípio do que vou chamar de significado. A identificação (definição) e relações “possivelmente verdadeiras” entre padrões seria um princípio da teia de significados.

Padrão é uma noção por definição imprecisa, confiamos na estatística. Enquanto não estamos “suficientemente” sensibilizados com algum padrão a ponto de fazer ligações ‘confiáveis’ para serem usadas, o que sobra? Intuição? Ela não é usada no fim das contas? Independente da coerência. Há algum sentido além da forma, é o que escapa, mas está lá.

Os ícones e seus significados (ligações possivelmente úteis) são uma forma mais prática de fazer saltar essas inter-relações, de até onde elas são “verdadeiras ou falsas”. Os ícones são o acesso ao resultado presente do processo de destilação de variáveis e suas relações.

As atribuições de cada ícone são flexíveis, depende da relação com outros ícones e da experiência própria. Também existem padrões não identificados por nenhum ícone, porém eles não deixam de ser possibilidades de significados. Pode demorar pra que um significado seja considerado “verdadeiro”, e nem por isso deixamos de considerar para nossas decisões o que relações “não verdadeiras” podem dizer, intuições.

Aprendizagem

O processo de aprendizagem é um processo que envolve destilar as definições das variáveis com base nas ligações e relações entre elas na teia. A noção de verdadeiro e falso, repetidamente, constrói isso. Aprender é comparar o conteúdo experimentado ou decorado com sua teia privada de significados. É resignificar a teia. Decorar é absorver uma relação pontual, específica de causalidade. Aprender é relacionar com o resto, é ir além do que é dito, é ouvir o eco interior.

Aprender é pensar sobre relações. É sentir relações. Será que pensar não é só um termo para sentir algo muito complexo e impreciso, que depende de uma estrutura, da teia? O pensamento como falante e ouvinte ao mesmo tempo. É mais fácil ficar em silêncio para pensar, pra sentir o que temos a dizer. A gente estimula os ecos, as memórias, as relações, os sentimentos, e ao mesmo tempo os compara, resignifica tudo. Aprender é uma atividade criativa, é tentativa e erro, é resultado da indagação. O que a gente escolhe é o modo de organização dos ícones, as relações que podemos aceitar como verdadeiras ou não. Será que escolhe?

O que é uma idéia? Pode ser a percepção de um novo arranjo de significados, a descoberta de possíveis novas relações entre variáveis.

Compartilhando

Enquanto não aprendemos a técnica de compartilhar pensamentos, não fazemos uso de ícones construídos socialmente (palavras). O grande salto acontece quando passamos a ter acesso a outras mentes, a outras experiências e impressões, à construção social dos significados.

A linguagem pública é uma ferramenta útil para compartilhar e esclarecer possibilidades de definições e inter-relações de variáveis. Na parte estatística, é também como se tivéssemos acesso às médias, uma bela base de comparação pras nossas próprias impressões sobre nossas experiências e das dos outros. Significados públicos são consensos sobre as relações entre variáveis, definições de variáveis segundo suas relações.

Significados dados publicamente dão maior clareza e objetividade para compartilhar experiências. É uma técnica de pensamento, eficiente, pensar em variáveis socialmente definidas. “Sair” da incerteza dos nossos conceitos privados, do isolamento. Uma criança que não fala está isolada de outras mentes.

Isso não quer dizer que não produzimos significado independentemente da linguagem pública , eles só seriam mais imprecisos, particulares. Inexplicáveis, assim como vários sentimentos são, porque as pessoas não são tão boas para trocar sentimentos, que dependem tanto de experiências muitas vezes tão particulares. Que bobagem achar que não há nada válido pelo simples fato de não conseguirmos compartilhar.

O consenso sobre significado permite a sintonia de pensamentos, conexão. Nós os usamos porque são mais precisos, são significados aceitos socialmente, são construções de variáveis com base nas experiências de várias pessoas, não só de uma mente isolada. A linguagem pública é o que há de consenso sobre significados particulares.

Uma experiência pode fazer com que um uso social seja considerado “falso”, não seja absorvido. Não cria sentido (interno). Absorvemos só o que nos interessa. Usamos só do jeito que nos faz sentido interno.

Em um nível mais complexo de pensamento, que envolve muitas inter-relações, usamos ícones, é uma técnica, como uma máquina. Mas todo instrumento, em algum ponto, foi construído por mãos, imprecisas. Acho que a linguagem é uma técnica avançada. Tem pensamentos complexos que só conseguimos alcançar com linguagem. Mas eles foram em algum momento construídos sobre sentidos, intuições, pensamentos em formação.

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