Elas são baratas pequenas, parecem baratinhas do mar. Elas ficam atrás das prateleiras perto da pia.

Antes eu via uma e a evitava. Depois de pouco tempo depois de ver outra, resolvi matar.

Só com sorte eu conseguiria matar todas, e só se fossem poucas.

Passei a tentar conviver depois que cheguei à conclusão que não ia conseguir me livrar delas. Estava até criando um carinho, quase como bichos de estimação, que escolheram morar na minha casa.

Até que elas começaram a ficar muito espaçosas, se dando ao luxo de saírem despreocupadas caminhando entre potes da prateleira. Tava ficando desagradável.

Resolvi partir pra guerra química e comprar um spray inseticida. Um spray no cantinho delas, algumas dão até saltos de susto. E saem doidas por ai, perdidas, até secarem.

Comecei a observar as remanescentes. Elas estão tão perdidas quanto as que estavam intoxicadas. Tão perdidas quanto a gente. E nessa hora me senti identificado com elas.

Mesmo assim eu tinha que manter a ordem. Senão elas me tomam todo o apartamento, e vou ter que começar a andar de galocha*, como foi o caso do menino que cultivava bolas de pêlo. Optei pelo controle populacional via genocídios ocasionais, amarga decisão.

Um dia elas ofereceram uma delas em sacrifício ao deus furioso. Do nada uma barata apareceu flutuando em algum tipo de teia de aranha, numa pose bem dramática – não existia nenhuma aranha por perto. Só podia ser uma oferenda – elas devem estar desenvolvendo um sistema religioso para lidar com seu inconveniente destino.

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