To escrevendo minha dissertação sobre valoração econômica. Sobre como medir socialmente o que as pessoas querem ou preferem, que depende de como ordenamos as alternativas disponíveis em termos de preferências. Isso serviria pra tomarmos melhores escolhas sociais do que escolhas arbitrárias de burocratas ou políticos, pra se esclarecer com base em que tomamos decisões públicas. No método de valoração que estou estudando eu perguntaria diretamente às pessoas o quanto elas gostam ou não gostam de alguma proposta.

Ai chegou a hora que você tem que pensar as implicações de seu novo conhecimento e de seus pensamentos sobre a realidade, aquela velha coisa do tipo “como se aplica ao Brasil”. E comecei a refletir e escrever algumas primeiras impressões.

A economia usa o modelo de indivíduo racional, que é implicitamente um modelo de indivíduo americano, ou chamando generalizadamente de racional, autodeterminado, maximizador de utilidade. Entretanto, nem todo o mundo é maximizador de utilidade, ou pelo menos uma parte das pessoas seria pouco sensível “variações de bem-estar”, ou tem pouca vontade ou desejo de mudar sua condição, o status quo, monitorar suas escolhas, fazer auto-crítica.

Algumas estruturas de pensamento dependem da construção cultural, concepções de escolha, de liberdade, de desejo. Estas estruturas vão definir como as escolhas são feitas, e vão ter um efeito sobre a qualidade delas.

Os valores não influenciam só o que as pessoas vão perseguir, mas provavelmente também a maneira como vão perseguir seus desejos, o modo de análise, de crítica, projeções de futuro.

A constituição brasileira impõe um teto de juros de 12% a.a. (quem escreveu isso entende como funcionam juros?) Outras leis ineficientes são um retrato do projeto de “racionalidade”. Elas não são ruins só porque são fruto de um jogo político tosco, mas também são fruto de falta de técnica, de visão e também de estruturas de valoração subjetiva e resolução de problemas diferentes. E isso se reproduz e dissemina de cima pra baixo na pirâmide.

A visão paternalista do estado é um indicativo de que as pessoas preferem escolhas de curto prazo ou mesmo de não fazer escolhas, da falta de crença em posturas de decisão de grupo e de sociedade.

Algumas pessoas talvez nem considerem algo como problema. Considerar algo como problema exige esforço, criatividade, auto-confiança para criar soluções. A não-escolha não ocorreria devido a um valor que defenda a paz ou o ócio por si só, mas por falta de visão, entendimento e de confiança.

Não há problema que a valoração de algo seja zero (indiferença quanto a solução proposta). Mas esse resultado não pode ser então uma má opção de uso como guia para políticas públicas? (sendo que seria mais valorizado por pessoas com maior nível de instrução) Até onde essa diferença de estruturação de preferências não é em si a diferença entre desenvolvimento e subdesenvolvimento? Porque fazem “piores” escolhas, que se arrependeriam caso pudessem “ver o que ia acontecer” caso tivessem feito outra escolha.

O problema da educação é bem clichê, mas fica a questão de o que fazer para se chegar a melhorias. Quem quer educação? E se as pessoas não valorarem ou não conseguirem enxergar os efeitos de fato, não místicos da educação. Não apenas como uma garantia de emprego e melhoria de vida, mas de autodeterminação e de possibilidade criação de novas soluções.

Em um contexto de dominação, o que significar ter sua vontade aceita?

Em um pasto, é como o dono legitimar sua dominação sobre as vacas perguntando a elas se elas gostam de pastar.

O ser humano vem selecionando geneticamente várias coisas. Selecionando os mais fortes, os mais belos, os mais mansos. Cada um em sua “função social”. Mas essa seleção não implica vida ou morte, apenas distribuição de renda, de direitos. E os que não têm direitos ainda podem ser úteis vivos.

“O que vocês querem, meus amores?”

O que fazer com essa seleção já feita, dos que não foram desejáveis?

Eu desejo o fim das vacas, por que bichos tão dóceis me lembram de um sistema de manipulação para diminuir o desejo, de mortos-vivos. Só que comer vaca não vai fazer elas desaparecerem, não vai desmontar o sistema.

Elas não têm lugar em um mundo sem dominadores humanos. E se deixarem eu ser dominador, eu vou acabar sendo muito escroto. Por isso prefiro que não existam dominados que possam legitimar minhas atrocidades.

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