Se você não gosta de ouvir falar de funcionalismo publico ou energia negativa, nem leia. Não é nada pessoal, não quero entrar em conflito por ‘bobagem’. Então se ler, não me venha encher o saco, nem se sinta mal por um comentário desses. Já me sinto mal pensando nesse assunto, e falo sobre ele sem esperança de trazer nada de bom e sem saber porque me sujeito a auto-degradação do meu estado de ‘de-boisse’.
Achei em uns artigos ai – só não achei gráficos didáticos, mas ta valendo:
Em 2002, o sistema de aposentadoria dos funcionários públicos (RPPS), com 2,6 milhões de beneficiários, geraram um déficit correspondente a 4,2% do PIB. A média das aposentadorias (atualizadas com base na remuneração dos ativos) foi de R$ 2.800,00. Os RPPS têm 3,7 milhões de contribuintes.
No sistema do INSS pro ‘resto’ da ‘sociedade’ (RGPS), com 21,1 milhões de beneficiários, gerou um déficit correspondente a 1,3% do PIB. A média das aposentadorias foi de R$ 389,14, sendo que 17 milhões desse total ganham o referente ao salário mínimo. O RGPS tem hoje 26,7 milhões de contribuintes.
Em um outro artigo de outro ano – mais acadêmico (“Imprevidência Pública”, do José Carvalho- FGV) – “o INSS incorre num déficit de cerca de 1,2% do PIB para distribuir 6,7% do PIB em benefícios a cerca de 19 milhões de brasileiros. Somente o setor público federal, que é relativamente a parcela mais significativa do setor, para atender a cerca de 880 mil aposentados e pensionistas incorre numa despesa de 2,6% do PIB, recebendo de contribuição de todos seus servidores cerca de 0,3% do PIB”. Fico feliz em ver que esse autor também se refere a isso no resto do texto com a palavra ‘privilégio’, e parece também indignado com tudo isso.
Parece que não faz muito tempo que juntaram o sistema público ao INSS. Me parece que assim fica mais difícil de ver onde está o rombo (a putaria) de verdade, pois agora está tudo agregado no INSS (antes não era). Agora, a “responsabilidade” é de todos – o prejuízo sempre foi.
Isso acontece no sistema institucionalizado de aposentadorias, não é o livre mercado malvado. É ‘direito adquirido’, oras.
A previsão é que, pro ano que vem, o déficit da previdência aumente 12% em relação ao ano passado. Só pra lembrar, déficit, quer dizer que ta tendo que se tirar dinheiro de algum outro lugar (será que não existe algo mais importante?) pra ‘aplicar’ onde está havendo o déficit.
Eu sei que não é todo funcionário público que ta na tal da lei 8112. Eu sei que professor é funcionário público e se fode . Nem todo mundo se dá bem e tem gente que trabalha direito. Eu acharia ótimo fazer coisas boas sendo funcionário público, e acho que todos deveriam fazer coisas boas, independente de onde se trabalhar. Não to falando mal do trabalho de funcionário público, mas do resultado de um corporativismo maldoso e irresponsável, auto-sustentável. O problema não é excluir todo o resto dos trabalhadores, não tem dinheiro pra isso, mas é se incluir dentro de um reino encantado, as custas de todos.
Mas meu ponto aqui agora é: Ta errado, tem que mudar. Como isso vai mudar? Quem quer que isso mude?
Queria ver uma passeata pra mudar isso. Em Brasília? Não, em Brasília acho que não vai dar.
Por que? O lema/diretriz da cultura local é “Salve-se quem puder!”. Ou “me dá logo minha parte, pelo menos eu faço bom uso dela”.
Fico impressionado com a maneira que as coisas são acobertadas toscamente. E o pior é que funciona. Ai saio por ai escrevendo textos enquanto sinto um estranho calor.
Calçadas e olhares
28/12/2009
Resolvi colocar uma citação que achei legal, de um livro clássico do urbanismo, que encontrei no meio de outro livro bem bacana chamado “Emergência”, de um tal de Steven Johnson. Recomendo, trata de níveis de organização, auto-organização bottom-up, comportamento emergente – por isso do nome do livro.
“Sobre a aparente desordem da velha cidade, sempre que a cidade funciona bem, há uma ordem maravilhosa que mantém a segurança das ruas e a liberdade da cidade. É uma ordem complexa. Sua essência é a intimidade da calçada, trazendo consigo uma constante sucessão de olhos. Essa ordem é totalmente composta de movimento e mudança… O balé da calçada da boa cidade nunca se repete, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações” – Jane Jacobs em “The death and life of great american cities”
A Estética e o Esoterismo
01/12/2009
Tudo começou =P quando eu tava tendo uma daquelas conversas sobre porque não to comendo carne, repensando e rejustificando a minha postura.
Parece que no final elas caem em argumentos mais do tipo, “isso é o certo”, ou algo mais emotivo como “não precisa justificar, sinto que é assim”. Claro que existem muitos outros motivos, esotéricos, saudáveis, anti-industriais, blabla, mas comecei a tentar fazer uma justificativa mais abrangente pra outras posturas também “estranhas”. Vou falar sobre uma possibilidade de postura e dar um nome talvez inusitado pra isso, talvez não.
Temos capacidades sensoriais, cognitivas, técnicas, impressionantes. Somos poderosos. Porque não usarmos elas ao máximo?
O puro individualismo me parece ser algo muito simples, linear. Pensar em outros níveis, em outras mentes, outros agregados, outros níveis, exige muito mais, exige algum esforço, alguma reflexão. Fazer as coisas funcionarem em um nível de organização maior, não só individual. No final, é opcional adicional, é um requinte. Vou chamar isso de elegância, não se referindo a status ou ostentação, mas a uma certa estética adicional opcional para as idéias.
Usar nossas capacidades plenamente, fazer o que não é fácil. Fazer o que eu acho melhor, só por que posso, só pela aventura, pela brincadeira. Afinal de contas, fazer coisas “bem” não é fácil, mas também não precisa ser um fardo, pode ser uma brincadeira, e a gente brinca quando pode.
Qualquer manifestação de preocupação por “buscar o melhor”, no sentido “do que mais satisfaça meus desejos/princípios etc. Há um esforço, que pode não ser penoso, mas até prazeroso, pois vai gerar algo “melhor”.
Temos uma capacidade impressionante de fazer “melhor” do que se não nos esforçarmos para entender as coisas de maneira mais “completa”. Dar importância e projetar coisas dessa maneira é uma questão de elegância.
A elegância pode ser diferente em cada lugar, cada cultura. Mas fica como uma “estética de idéias”, algum padrão, alguma consciência, talvez mais, refletida, sentida. Não há estética se há descaso – no sentido de se ignorar.
Algo que se sabe que forma algo mais macro, não somente individual – uma “harmonia”
Cumprimentar, fazer fila, não comer bicho, esses tipos de cuidados, são opcionais. Opções elegantes. São, no máximo, elegantes, que é um pouco melhor do que o descaso.
É algo a se produzir – não implica perder a vida ou a vivacidade, é ganhar uma esfera, uma consciência. Incrível essa tal de estética.
o Céu, o Chão
16/11/2009
Esses pensamentos sobre linguagem e inteligência me fez ir atrás de teorias sobre cognição animal, sua relação com a “consciência”. Esse salto entre animal e humano não funciona. Logo, tive a idéia de buscar termos relacionados interessantes na wikipédia. Me dei de cara com uma quantidade enorme de informação e teorias, o que até desarticulou um pouco minhas idéias, então esse será um post broxado. Já tá tudo pensado nesse mundo. Tem tanta gente pensando sobre isso, e eu nunca estudei nada disso na aula de ciências! Ainda assim vou expor de maneira desnecessária o que penso – se não, não tem graça – descarga abaixo.
Partindo do papo de organização de significados, como essa organização evolui? Memória, valores, passado, significados. Uma hora começamos a ter acesso ao futuro, a abstração, a projeção. Os humanos desenvolveram muito o “sentido do futuro” (ainda que talvez muito limitado). Dominaram o futuro, se apropriaram dele. Mas outros animais também têm acesso a ele, a escolhas futuras, tem a noção de capital e investimento (de uma maneira ampla). Um pássaro constrói um ninho, faz estoques. Já viajamos para o futuro (os futuros) – sem os problemas de paradoxos =) Conforme vamos separando melhor causas e efeitos, a noção das possibilidades, vamos desbravando o futuro.
O próximo passo em complexidade é produzir cenários, não só interpretá-los. Quanto mais complexos e variados os cenários, mais acesso ao futuro. Ai que parece que começa um conceito de inteligência que vai além do que abrange simplesmente ‘resolver problemas’. Quanto melhor construímos cenários, com relações mais precisas entre variáveis, mais consciência temos do todo, e vice-versa.
Autoconsciência
Eu tava pensando na autoconsciência como um estado de confusão, resultado de um grande cruzamento de informação que tenta ser interpretada, a “consciência” do poder de escolha, ou da ‘margem de erro’ que gera a ilusão das possibilidades. Como somos imprecisos para entender e prever coisas, chamamos os ‘erros esperados’ de interpretação de ‘possibilidade’, ou por que não, de escolha. Uma vez que percebemos essas possibilidades, percebemos a “responsabilidade da existência”. Mas não entendemos direito, não sabemos o que queremos. Temos que perguntar.
A consciência da possibilidade, de que algo ‘melhor’, desejável, é possível – e me parece que isso requer que seja melhor no futuro. Também requer uma idéia de sujeito para o “melhor para que, ou para quem”. O sujeito talvez possa ser um formigueiro, um corpo, uma ‘mente’, um universo.
A autoconsciência como um conjunto de perguntas que conseguimos fazer sobre nós mesmos, questionamentos sobre o ‘desejável’ – onde mora a confusão. Para isso temos que ter a capacidade de abstrair cenários para balizar escolhas. O vislumbre das possibilidades futuras muitos animais têm. O problema é sentir “a melhor” possibilidade futura para um. É defini-la. É no máximo uma direção imprecisa. Bactérias e vegetais são precisos demais no que fazem.
Todos criam respostas ao ambiente, a problemas. Mas por algum motivo damos valor para os que criam perguntas. “O que eu quero?” – o ser humano está muito confuso. Parece que se questionar sobre si mesmo é um artifício pra depois de respostas frustrantes: Eu quero picolé de uva ou maracujá? Hum… não sei, vou pensar um pouco sobre as bases de quem eu sou pra ver se descubro uma resposta mais satisfatória para essa minha grande dúvida, pra essa minha indiferença.
Criatividade e Inteligência
Eu vi que tem gente que considera que inteligência e criatividade são duas coisas distintas. Depende do conceito de inteligência. Acho que muitos animais são inteligentes, só não são tão criativos quanto os humanos podem ser pra abstrair tantas possibilidades, ou não. Criatividade para testar diferentes agrupamentos de variáveis e significados.
Vi algumas definições possíveis de inteligência. Umas colocam como capacidade de resolver problemas, e além, potencial para achar e abstrair problemas, para então poder adquirir mais conhecimento. Adquirir conhecimento – memória de resoluções de problemas, de processos, caminhos mentais.
Inteligência poderia ser dita simplesmente como um grande processo cognitivo. Mas a grande questão é ‘criar inteligência’, adaptação, não só ter inteligência pra interpretar e resolver problemas restritos (isso vem sendo medido com coisas tipo vestibular). Tem que ser capaz de melhorar métodos cognitivos por si só, criar e perceber novas possibilidades.
Talvez ‘instinto’ seja às vezes atribuído a respostas muito rígidas de cenários. A inteligência seria a adaptação a diferentes cenários – vários animais conseguem. A “qualidade” superior está em formular perguntas, e não respostas, e pra isso é preciso criatividade. A gente é bom em direcionar um random e sentir as respostas.
A criatividade seria então requisito para a autoconsciência. Tem que criar perguntas sobre sí mesmo, sobre “o desejável”, tem que se perguntar sempre novas perguntas conforme o ambiente muda. Introspecção pode ser uma técnica, mas não é ensinado na escola. Isso teria de ser melhor agregado à cultura e à educação.
Interessante que, como abstrair para perceber as coisas envolve esforço, parece que ainda poderia sobrar espaço para uma liberdade de se buscar perceber melhor as coisas, ou não. A liberdade – em outro sentido – estaria em perceber que o melhor possível foi feito, que o resto é esforço em vão. Resta apenas apreciar. No acaso, é livre. A busca pelo poder, pela técnica, nos faz querer reduzir a aleatoriedade. Mas a partir de um nível, voltamos. Quanto mais conscientes, mais aceitamos o aleatório.
Noite
31/10/2009
Silêncio
Escuro
o vento tava ficando mais forte
os grilos fazem um barulhinho bucólico
e junto, o barulho das árvores ia ficando mais forte
via uns clarões com os olhos fechados
o vento inclinava minhas costas quando vinha mais forte
o barulho das folhas preenchia o ambiente
tão caindo umas gotas espaçadas em mim
outro clarão
comecei a sentir minha cabeça mais alta, eu pequeno, de longe, em todo lugar, em meditação
a chuva aperta
que bom
vou escrever sobre isso
o barulho da chuva toma conta do ambiente
que pena que vou esquecer tudo
Experiência, Intuição, Linguagem
22/10/2009
Eu não sei porque eu exponho esse tipo de pensamento megalomaníaco..
Padrões e Comparações
Os sentidos são os filtros de informações, dados a priori. Inicialmente são sobre informações químicas e físicas, ondas e matéria. Os sentidos parecem ser viesados pela percepção inicial de um “eu”, que me parece ser delimitado inicialmente pela dor (tato, fome), um sentido interno. Acho que isso não importa tanto agora.
O que fazemos com essas categorias de informação? Fazemos uso delas (não me pergunte pra que ou porque). Para ter algum uso, as informações devem ser separadas, clarificadas. Depois conectadas entre si. A natureza dá a primeira sugestão de categorização, dado pela própria diferença entre os sentidos.
Somos maquininhas de detectar padrões. Somos sensíveis a frequências, ao uso da estatística, da memória. Tem coisas “que ficam”. Acho que aí começam as teias. Nós temos múltiplas sensibilizações simultâneas que ao longo do tempo devem formar padrões mais complexos de sensibilização conforme vamos ficando mais ‘sensibilizáveis’, desenvolvemos melhor nossa memória (sensibilização de longo prazo?).
Mas como definir um padrão? Como isolá-lo do resto das informações que formam outros possíveis padrões? Psicodélico. Acho que o padrão é aquilo que ‘salta’, que deixa marca na memória. A princípio não me parece ser voluntário, talvez seja algo bem químico mesmo, apertar os mesmos botões várias vezes deixa eles mais sensíveis, inclusive entre eles. Será que é só questão de estar suficientemente sensibilizado para que se possa identificar e definir algo?
Provavelmente há uma hora que passamos a aplicar a noção de verdadeiro e falso, ou seja, temos capacidade de analisar se um novo conjunto de informações corresponde ou não a outros padrões relacionados memorizados. A consciência (!) de algum padrão definido que será usado para podemos comparar, e porque não, julgar.
Criamos “ícones” para determinadas ‘frequências’ mais comuns e utilizadas que nos permitem identificar com alguma precisão relações de verdadeiro/falso. Isso implica construir ícones para relações entre variáveis. Vou chamar de ‘variável’ uma característica percebida como básica ou primeira que define ou determina um padrão.
As relações das ligações entre diferentes tipos de sensibilizações são o princípio do que vou chamar de significado. A identificação (definição) e relações “possivelmente verdadeiras” entre padrões seria um princípio da teia de significados.
Padrão é uma noção por definição imprecisa, confiamos na estatística. Enquanto não estamos “suficientemente” sensibilizados com algum padrão a ponto de fazer ligações ‘confiáveis’ para serem usadas, o que sobra? Intuição? Ela não é usada no fim das contas? Independente da coerência. Há algum sentido além da forma, é o que escapa, mas está lá.
Os ícones e seus significados (ligações possivelmente úteis) são uma forma mais prática de fazer saltar essas inter-relações, de até onde elas são “verdadeiras ou falsas”. Os ícones são o acesso ao resultado presente do processo de destilação de variáveis e suas relações.
As atribuições de cada ícone são flexíveis, depende da relação com outros ícones e da experiência própria. Também existem padrões não identificados por nenhum ícone, porém eles não deixam de ser possibilidades de significados. Pode demorar pra que um significado seja considerado “verdadeiro”, e nem por isso deixamos de considerar para nossas decisões o que relações “não verdadeiras” podem dizer, intuições.
Aprendizagem
O processo de aprendizagem é um processo que envolve destilar as definições das variáveis com base nas ligações e relações entre elas na teia. A noção de verdadeiro e falso, repetidamente, constrói isso. Aprender é comparar o conteúdo experimentado ou decorado com sua teia privada de significados. É resignificar a teia. Decorar é absorver uma relação pontual, específica de causalidade. Aprender é relacionar com o resto, é ir além do que é dito, é ouvir o eco interior.
Aprender é pensar sobre relações. É sentir relações. Será que pensar não é só um termo para sentir algo muito complexo e impreciso, que depende de uma estrutura, da teia? O pensamento como falante e ouvinte ao mesmo tempo. É mais fácil ficar em silêncio para pensar, pra sentir o que temos a dizer. A gente estimula os ecos, as memórias, as relações, os sentimentos, e ao mesmo tempo os compara, resignifica tudo. Aprender é uma atividade criativa, é tentativa e erro, é resultado da indagação. O que a gente escolhe é o modo de organização dos ícones, as relações que podemos aceitar como verdadeiras ou não. Será que escolhe?
O que é uma idéia? Pode ser a percepção de um novo arranjo de significados, a descoberta de possíveis novas relações entre variáveis.
Compartilhando
Enquanto não aprendemos a técnica de compartilhar pensamentos, não fazemos uso de ícones construídos socialmente (palavras). O grande salto acontece quando passamos a ter acesso a outras mentes, a outras experiências e impressões, à construção social dos significados.
A linguagem pública é uma ferramenta útil para compartilhar e esclarecer possibilidades de definições e inter-relações de variáveis. Na parte estatística, é também como se tivéssemos acesso às médias, uma bela base de comparação pras nossas próprias impressões sobre nossas experiências e das dos outros. Significados públicos são consensos sobre as relações entre variáveis, definições de variáveis segundo suas relações.
Significados dados publicamente dão maior clareza e objetividade para compartilhar experiências. É uma técnica de pensamento, eficiente, pensar em variáveis socialmente definidas. “Sair” da incerteza dos nossos conceitos privados, do isolamento. Uma criança que não fala está isolada de outras mentes.
Isso não quer dizer que não produzimos significado independentemente da linguagem pública , eles só seriam mais imprecisos, particulares. Inexplicáveis, assim como vários sentimentos são, porque as pessoas não são tão boas para trocar sentimentos, que dependem tanto de experiências muitas vezes tão particulares. Que bobagem achar que não há nada válido pelo simples fato de não conseguirmos compartilhar.
O consenso sobre significado permite a sintonia de pensamentos, conexão. Nós os usamos porque são mais precisos, são significados aceitos socialmente, são construções de variáveis com base nas experiências de várias pessoas, não só de uma mente isolada. A linguagem pública é o que há de consenso sobre significados particulares.
Uma experiência pode fazer com que um uso social seja considerado “falso”, não seja absorvido. Não cria sentido (interno). Absorvemos só o que nos interessa. Usamos só do jeito que nos faz sentido interno.
Em um nível mais complexo de pensamento, que envolve muitas inter-relações, usamos ícones, é uma técnica, como uma máquina. Mas todo instrumento, em algum ponto, foi construído por mãos, imprecisas. Acho que a linguagem é uma técnica avançada. Tem pensamentos complexos que só conseguimos alcançar com linguagem. Mas eles foram em algum momento construídos sobre sentidos, intuições, pensamentos em formação.
Histórico de Tentativas Frustradas
13/10/2009
Na 2° série, com uns 8 anos, eu comecei a ter aula de inglês na escola. Eu não entendia porra nenhuma e não via utilidade nenhuma naquilo. He, she, stand up, sit down. Eu ficava pensando, “quem é quem nesse Ri e Xi? Porque eu tenho que levantar e sentar quando aquela mulher balbucia umas palavras incompreensíveis? O que eu tenho a ver com essa pronuncia exótica de ‘pink’?”
Resolvi fazer um abaixo assinado pra tirarem a professora e a aula de inglês. E fiz mesmo, fiquei catando assinaturas de várias salas durante um tempo. Quando tava terminando, chegou a coordenadora na aula de inglês e falou que as coisas iam continuar daquele jeito mesmo. E eu continuei sem entender nada das aulas de inglês e completamente desinteressado até ter que usar ele de verdade quando viajei pra Austrália.
- O que eu aprendi: É melhor primeiro conversar, negociar, pra ver até onde “se pode ir”.
Na 7° série me arrisquei a ser representante de turma. Pensei e apresentei um monte de propostas revolucionárias, e, por incrível que pareça, fui eleito, junto com um amiguinho mais popular, hehe. Queria fazer uns questionários pros alunos avaliarem as aulas, tipo esses que tem na unb no final dos semestres. No final não pude fazer nada, nunca me chamaram pra nada e fiquei com vergonha de ter que continuar sendo representante.
- O que aprendi: Não pode. Tem que ser aprovado pela coordenação, avaliações autônomas extra-oficiais não são consideradas. Seria ruim para a imagem dos professores.
Quando eu tinha uns 12 anos eu era escoteiro (mais precisamente um lobinho experiênte =P). Entrou uma mãe de umas meninas como assistente da “chefe”, que depois de um tempo começou a fazer um tratamento desigual entre quem ela gostava (inclusive suas filhas) e quem era dos outros grupos (inclusive eu). Fiz uma “caixinha de sugestões e reclamações” pra juntar as idéias e ver o que o pessoal tava achando e apresentar pra chefe. Pra ser sincero não lembro como o plano foi desarticulado, lembro que deu um quebra pau e teve um pessoal (inclusive eu) que saiu do escoteiro.
- O que aprendi: Poucas pessoas conseguem avacalhar uma coisa potencialmente legal; As estruturas podem ser muito mais fortes do que vontades de muitas pessoas, e elas cedem a isso.
Depois de tretas menores e desarticulação social de vir pra Brasília, resolvi entrar na Econsult (empresa júnior da economia) quando era calouro. Me botaram inicialmente no RH. Legal, um monte de gente bem intencionada pra cuidar de uma empresa que não tem projetos. Depois fui pra área de projetos. Não tinha projeto, então fui fazer a “metodologia” das análises. Hoje acho que só me sentiria capaz de fazer alguma realmente massa pela empresa júnior depois de formado, ou nos últimos semestres. Tem que ter uma visão mais ampla.
- O que aprendi: Não tem nada pra fazer? Cria burocracia pra manter um sistema “funcionando”. Pelo menos o pessoal do RH e do cafezinho vãi fazer alguma coisa, o resto fica de fachada. Pra alguma coisa funcionar ela tem que ter objetivos claros e funcionais, não basta criar uma estrutura e esperar que ela se desenvolva por conta própria.PS.: Pelo menos da pra conhecer pessoas nesses lugares =)
Minhas experiência de estágios no governo foram no Ibama e no Ipea
- O que aprendi: O serviço público é igual eu imaginava. Qualquer um se sente desestimulado, ele é cultivado pra isso, pra impedir que pessoas criem algo melhor e façam bom uso do governo, assim todo mundo pode ‘desfrutar’. Pra quem taí, ia ser legal se conseguisse fazer alguma coisa melhorar de dentro. Se não der, acredite que pode existir algo melhor pra se ganhar menos dinheiro – fora da aristocracia.
Talvez por tudo isso hoje em dia eu tenda mais pra ser um reformista do que um revolucionário. Organizar pessoas é uma tarefa muito difícil e desgastante. É mais fácil pagar mercenários.
Imprecisamente certeiro
27/09/2009
O momento da decisão
.
Temos apenas que estar abertos
Temos que estar atentos
.
Ela é sentida no momento que se deve decidir
que só passa de tempos em tempos
.
Não há nada a ser previsto
Preocupações vem em vão
E ainda assim vão e vem
.
A mente só escolhe
o que observar
como observar
.
Há impressões se amontoando
Há direções sendo sentidas
.
Vamos às cegas, mas sentimos pra onde devemos ir
A economia e o que importa
17/09/2009
Outro dia estava numa conversa de bar, quando ouvi um comentário, recorrente, que reflete o que acho que muita gente acredita sobre a relação entre renda e bem-estar, ou sobre a importância ou significado da medida monetária em si.
Estava falando sobre como era inteligente fazer uma cidade com um bom sistema de transporte público, como as pessoas não teriam de ter a preocupação extra de trabalhar para juntar 30.000 reais e afundá-los em um carro, sobre o quanto de felicidade, despreocupação e melhor uso do dinheiro do trabalho de pessoas poderia ser gerado por essa decisão política.
Então comentam: Mas isso é ruim pra economia, as pessoas precisam gastar pra ela se movimentar, pra gerar empregos, pra aumentar o PIB.
Não precisou fazer pausa para reflexão. Esses 30.000 poderiam ser usados de maneira melhor com outras alternativas, melhor do que um carro. Eles inclusive não se evaporam se não usar eles hoje, eu posso também poupá-los para usar em um momento mais apropriado pra mim.
Eu talvez nem queira trabalhar tanto se não precisar de um. Se eu gastar 30.000 em abobrinha, lápis de cor ou carrinho de rolimã, vai movimentar a economia, vai transferir renda. Alguns desses gastos não vão ser nem contabilizados pelo PIB, mas não deixarão de movimentar a economia. E quem está preocupado em movimentar a economia? Existe muuuito além do que é trocado formalmente em uma economia. Existem coisas mais importantes do que trocar. Trocar é um meio, não um fim.
Infelizmente trocar é um fim pra quem se preocupa com índices econômicos, como o Lula, que em plena crise manda todo mundo comprar geladeira e carro porque é bom pro PIB do Brasil-sil-sil! Agora, será que é bom pra quem gastou quando o presidente mandou? Não tinha nada melhor pra fazer? Não tinha hora melhor pra fazer? Crise não é hora pra comprar. Se você não sabe se ainda vai ter seu emprego amanhã, eu não te aconselharia a gastar mais. Mas vamos lá, que o PIB tem que rolar. Governo gasta mais, pessoas gastam mais, não importa com o que, o importante é gastar, porque temos metas macroeconômicas e eleitoreiras. Vamos aproveitar a aumentar em 10% o funcionalismo público pro ano que vem.
Essa é uma mentalidade brutal. Não há critério para se gastar, uma vez que o efeito imediato aparece só nos indicadores do ano em questão. Vender carro é melhor pra economia do que fazer um transporte público decente. Mas será que as pessoas não tem nada melhor pra fazer com o dinheiro? Não seria uma boa fazer as pessoas economizarem pra poder comprar outras coisas ou talvez gastar com algo simples e mais inteligente?
E será que comprar é sempre bom? Vender garrafinhas de água no parque é melhor pra economia do que colocar bebedouros? O parque da cidade tem 2 bebedouros. Isso é inteligente? Ah, mas ai as pessoas vão comprar água, é bom pra economia. Isso funciona do mesmo jeito que a questão do transporte público. É uma coisa que no longo prazo tem os benefícios muito maiores que os custos, é uma questão simples de administração de recursos (poderia ser até uma questão democrática – e é – mas pra se ver como é óbvio, dá pra ficar só no argumento econômico). Se eu der água de graça, vou ter uns custos de fazer a infra dos bebedouros, mas as pessoas (que formam uma sociedade, quem diria) não vão precisar gastar com garrafinha, não vão jogar fora a garrafinha, vão provavelmente querer frequentar mais o parque, vão fazer mais exercício, etc.
Os benefícios indiretos de um transporte público que funcione bem também são imensos. As pessoas vão usar mais a cidade, não vão deixar de fazer algo agradável ou útil por causa do custo de locomoção. Isso gera riqueza, isso é riqueza potencial, é o fim, é o “bem-estar”. Comprar é um dos meios pro aumentar o bem-estar, e está longe de ser o único. O PIB só captura o que é trocado no ano, um fluxo de “riqueza”. E tudo aquilo que só é produzido ou consumido anos depois de um investimento inteligente? E aquilo que não é trocado, e que faz com que as pessoas sejam possivelmente mais felizes ou livres?
Nem o PIB nem a renda per capta, nem o índice de analfabetismo capturaram a proibição da marcha da maconha. Também não capturaram o golpe no estado do Maranhão que colocou a Roseana Sarney no poder.
É incrível a atenção que “índices objetivos” conseguem atrair. A capacidade de desviar a atenção também é impressionante. Eles indicam se “as coisas” estão indo bem ou mal. O foda é o que são essas “coisas”. O que importa estar melhor ou pior de verdade?
Não sei se os “mistérios” da economia são formados por uma complexidade falsa criada para coisas simples, ou se são conclusões simplistas para coisas complexas.
Frequences
08/09/2009
the storm is coming
bringing things to life
.
shivering leaves,
branches shaking
in leaning trees
.
boiling clouds
running with the wind
passing through my face
.
there are no colors this time
it’s not a sun set
there are shades, smells and sounds
.
he waits for the rain
to bring news now
he’s still not sure
if he’s being fooled by clouds
. . .
loose meanings can’t hold minds
they let it go, so they can blow high
Oscilações
05/09/2009
De onde vem as ondas?
Para onde elas vão me levar?
Para o mar, só há mar
soa o mar… (aproveita pra escutar. ……)
(…….cCc……..cCc…….)
A felicidade parece ser uma coincidência
O topo das cristas das ondas
Como castelinhos de areia
Que de onda em onda se destrói
Que de onda em onda se constrói
Exemplo e Possibilidade
31/08/2009
Compartilhar um exemplo
Se expor, se propor a mostrar uma possibilidade
O compartilhamento de informação
.
Informação para reavaliar a “normalidade”
Para conhecer o alcance das possibilidades
Facilitar a saida da inércia do normal.
.
Exemplos sinceros
Exemplos esforçados
.
Mostram possibilidades de diferença
para a criaçao de espontaneidade
.
O peso do exemplo
Base para a criação de valores
.
A leveza do exemplo
Uma possibilidade
.
Políticas mobilizam massas
homogenizam o heterogêneo
.
Exemplos permitem que indivíduos se formem/mudem
produção individual de verdade, abre possibilidade para o heterogêneo
.
Assumir a responsabilidade do alcance do exemplo
Impressões de um Por do Sol na Praia
27/08/2009
Uma História Íntima da Humanidade
27/08/2009
A intimidade é um conceito que tem me interessado ultimamente. Ela define o grau de conexão entre humanos, entre mentes, entre idéias e seus significados.
Intimidade já remete a algo que está sendo guardado, algo particular. Por que guardamos nossas idéias, sentimentos, opiniões? Desconfiança e desconhecimento.. parece que há uma inércia da desconexão. A final de contas, exige algum esforço.
“Uma história Íntima da Humanidade” – de Theodore Zeldin, um coroa inglês simpático, filósofo, sociólogo, historiador – é um livro muito bacana que trata disso. Amplo e raso, do jeito que eu gosto – porque o “resto” cada um constrói. O livro não tenta passar uma idéia central, não é um texto de história, nem de auto-ajuda, mas bem que é um pouco dos dois.
Os títulos dos capítulos já parecem ser bem interessantes: “Como homens e mulheres aprenderam a ter conversas interessantes”, “Como o respeito se tornou mais desejável que o poder”, “Como os seres humanos se tornaram hospitaleiros” são alguns. Cada um traz um pequeno resumo histórico/cultural sobre algum conceito ou tipo de experiência humana junto com a história de uma das várias pessoas de diversas partes do mundo que o autor entrevistou em suas “intimidades”.
São mostrados problemas questões cotidianos de pessoas normais, que refletem alguma questão existencial, alguma busca por sentido ou visão da vida. Essas situações pessoais são compartilhadas como ilustração para alguma questão. Por exemplo, as diferentes maneiras que as pessoas procuram resolver seus problemas: fugindo, encarando-os de frente, tentando tolerar, trocando de medo. A solidão, a curiosidade, a criatividade.
Depois de várias estórias e histórias, de pincelar e tecer vários conceitos de maneira despretensiosa, fica um sentimento no final. Ele não passa uma idéia específica. Na verdade passa tantas que você acaba “sentindo” um significado. Eu atualmente estou muito a favor de pensarmos de maneira mais intuitiva, que a intuição tem algo a nos dizer, principalmente sobre experiências humanas e os significados que nós estamos constantemente construindo, que são sempre imprecisos.
É uma coisa muito legal se identificar com essas pessoas. Acho muito legal o sentimento de “se identificar”, se sentir menos sozinho, menos mal entendido. E na verdade, no fim das contas, você vê que se identifica com várias coisas de várias pessoas do livro, que só não sentimos essa conexão com as pessoas no dia-a-dia porque não temos acesso às intimidades alheias. Por que não?
Fico me indagando todos os papéis que uma simples conversa não pode ter. Você dá e recebe visões de possibilidades, de posturas, de exemplos. Se conecta. Nossa capacidade e disposição de nos comunicarmos é uma técnica, uma ferramenta pra expandirmos nossa visão do mundo, expandir nossa visão sobre as pessoas e sobre nós mesmos. Isso me parece muito poderoso.
É incrível como só de saber de alguma história da vida de uma pessoa já nos sentimos mais próximos. Muitas vezes não temos muita oportunidade ou interesse desse tipo de troca. Isso deixa as pessoas mais distantes, menos receptivas, menos inteligentes. A sabedoria, o entendimento que se adquire tentando entender problemas cotidianos, causas, conseqüências, motivações, faz com que possamos aceitar, respeitar mais. É um exercício diário – como pensar.
O distanciamento, a alienação “involuntária”, é algo muito importante a ser superado. Adoro os argumentos sociais que vão além do clichezão da igualdade, liberdade, blabla. Existem coisas anteriores a isso, algo que leva naturalmente aos outros conceitos “mais agregados”. Argumentos que se baseiam em conceitos mais interessantes, como criatividade e intimidade, na diferença, estão me parecendo mais interessantes do que outros que muitas vezes são, no fim das contas, preocupações muito materiais.
O acesso à intimidade é o acesso ao sincero. Como diria outro sábio citado um dia pelo Antonio Abujamra: se todos expusessem seus desejos e pensamentos mais íntimos, sairíamos todos gritando horrorizados pelas ruas – não me lembro exatamente da frase. Que bom seria, nos sentiríamos mais normais e também mais seguros de nossa anormalidade. Mais sensíveis também.
Eu gosto da idéia de me interessar e entender pessoas. Nunca fui muito bom de guardar intimidades, fica mais fácil de trocar assim.
“Explorar o mistério dos pensamentos e sentimentos de outras pessoas é a nova indagação espiritual. Buscar empatia é a nova recompensa da intimidade.” – Theodore Bróder





